Rio inova no debate sobre o legado olímpico

A palavra “legado” no contexto dos grandes eventos esportivos já é quase um clichê. Hoje, espera-se que todo evento cultural ou esportivo deixe uma série de benefícios sociais, econômicos e infraestruturais permanentes para as gerações futuras da cidade-sede. Nas últimas semanas, os organizadores dos Jogos Olímpicos de Londres tiveram de defender os planos de uma recuperação sustentável e permanente da parte leste da cidade após 2012, em resposta a uma série de críticas devido a relatos de uma queda da prática esportiva e a dúvidas quanto ao futuro das instalações após os jogos.

Até certo ponto, o Comitê dos Jogos de Londres tornou-se seu algoz com a utilização constante, desde o início do processo de candidatura a cidade-sede, do conceito de legado. A organização também deve saber que, desde então, e devido à conjuntura econômica incerta, surgiu uma série de relatos de que poucos benefícios foram deixados, no longo prazo, pelos grandes eventos esportivos em locais que já os sediaram anteriormente.

Dinâmica de mudança sociocultural

Obviamente, não é ingenuidade crer que a Olimpíada de 2016 passe ao largo dos mesmos questionamentos e polêmicas. No entanto, o Rio talvez esteja revolucionando a abordagem dessa questão, criando uma dinâmica de mudança sociocultural nos anos anteriores ao evento e não após ele.

No mês passado, tive a oportunidade de testemunhar, em primeira mão, algumas das pequenas e grandes transformações em curso na cidade a convite da NBS, que há pouco lançou um programa singular chamado Rio 14/16. Iniciado como uma forma de reafirmar as raízes cariocas e com vistas ao potencial dos próximos eventos esportivos, o projeto cresceu, passando a ter um escopo muito mais amplo, o que colocará a agência entre os mais envolvidos e interessados nos processos de mudança que domina a cidade do Rio.

Uma pesquisa realizada com residentes de todas as regiões da cidade, logo no começo do projeto, demonstrou que o maior interesse da população, naquele momento, era a instalação e o sucesso permanente das UPPs, mais do que a Copa ou a Olimpíada.

Conforme explicou a coordenadora do projeto, Taciana Abreu: “Os Jogos Olímpicos permitiram uma série de outras mudanças, inclusive a pacificação das comunidades.” A partir dessa percepção, a agência trabalha, dentro das UPPs — junto às comunidades e serviços sociais —, em busca de uma compreensão da maneira como a presença do Estado está integrando milhões de cariocas excluídos ao tecido urbano.

Logo após o anúncio de que o Rio sediaria os Jogos, houve um tremendo aumento da autoestima da cidade, além de um incremento progressivo do acesso ao Estado para grande parte da população das comunidades, o que levou a uma transformação das estruturas informais existentes. Como destacou Taciana, de várias maneiras, o Rio esteve à margem dos processos de redução da desigualdade, do qual grande parte do Brasil vem se beneficiando.

Esse recém-descoberto senso de inclusão foi acompanhado de várias transformações pessoais e sociais nesses núcleos, muitos dos quais têm uma forte ligação com a Olimpíada, seja em função do aumento do acesso à educação, do interesse nas atividades esportivas ou da implantação de programas de capacitação profissional e treinamento, tais como o projeto Coletivo, da Coca-Cola.

Em uma das visitas, o capitão Glauco Schorcht, responsável pela UPP da Providência, explicou que, por causa da Copa e da Olimpíada, já existe uma procura por cursos de inglês e informática, bem como novas oportunidades em hotéis e outras empresas do setor de serviços nas proximidades. Em uma caminhada por aquela comunidade e na de Cantagalo, uma das coisas que mais chamam a atenção é a quantidade de jovens andando de bicicleta, carregando pranchas de skate ou bolas de basquete, apesar da falta quase total de instalações esportivas.
Contudo, uma das transformações mais impressionantes em consequência do estabelecimento das UPPs foi na área de esportes. Com a presença permanente de muitos policiais, dentro das comunidades começaram a surgir aulas de artes marciais. Em apenas um ano, crianças que nunca haviam praticado esses esportes passaram a participar de competições estaduais.
Agentes de transformação
A iniciativa da NBS representa um investimento efetivo no futuro em construção do Rio de Janeiro. “Não se trata apenas de altruísmo social, mas de um dos elementos de uma estratégia que permitirá às marcas participar do debate acerca do futuro da cidade e do direcionamento da sociedade brasileira em mutação. O trabalho da agência está levando a uma compreensão clara entre os clientes, que, como se espera, desejarão aproveitar essa oportunidade, que vai muito além do marketing esportivo e da ativação de patrocínio mais tradicionais, que muitas marcas buscarão durante os Jogos”, afirmou Taciana. É como um balão de ensaio para os profissionais da área atuarem como agentes de transformações positivas feitas com determinação.
É claro que o Rio enfrentará muitos debates e a promessa de a Olimpíada servir os catalisadores de uma mudança deve ser compreendida dentro de um contexto muito mais amplo. Há enormes barreiras à inclusão, seja como cidadão dentro de uma sociedade digital, seja com relação ao emprego estável.

A questão de até que ponto os Jogos terão um legado de longo prazo na futura cidade-sede será sempre objeto de debate e, de várias formas, será intangível e incomensurável. Mas, como vem demonstrando o Rio de Janeiro no quotidiano, talvez seja um erro admitir precipitadamente que a capacidade de atuar como agente de mudança e o legado do grande evento só se concretizam após seu encerramento.

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